Visita Guiada Meninos 22.5.15 Irene (15) © 2017 Ines Valsinha. Todos os direitos reservados

Migrantour Escolas – @s noss@s guias

FÁTIMA

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Sou filha de migrantes cabo-verdianos que chegaram na sincronia da Revolução dos Cravos. Nasci no pós -Revolução e as minhas lembranças começam  no primeiro dia de escola onde a minha professora,  uma senhora com os seus 50 anos, moçambicana, de pele escura, mas traços  tipicamente indianos, recebeu-me e perguntou à minha Mãe de onde era. Ao saber depressa apressou-se a dizer que adorava cachupa. Eu, com um vestido azul, camisa branca e duas tranças no cabelo,  que foram, naquele dia, cuidadosamente feitas pela minha Mãe, lembro-me de ouvir a professora dizer: “não fale, em casa, com ela em crioulo porque irá fazer uma grande confusão”……. (Babel….)….Passaram-se algumas décadas  e as tranças e os carrapitos  coloridos deixaram de existir. A carapinha deu lugar ao cabelo desfrisado  e alisado com os produtos adquiridos no Martim Moniz.

A alma foi e é de crioula, até  porque, em casa ouve-se crioulo,  come-se catchupa, môdje, cuscuz, moreia frita e há grogue na mesa de conserva de pais e tios. No Ano Novo não falta, após as doze badaladas o “Boas Festas” de Luís Morais. No meio disto, porque, como diz o meu Pai, “ o mundo é uma aldeia pequena”, cruzo-me, nesta Lisboa, com gentes de outras terras, outras culturas,  outras religiões.  De católica e cabo-verdianos a minha alma enamora-se………..enche-se de aromas da Índia, de rituais islâmicos, novos costumes aprendem-se e me tornam naquilo que hoje sou, a crióla!!! Como simpaticamente me chamam quando passo no meio de cabo-verdianos, novamente com o meu afro, agora bem assumido. A alma, essa inquieta, faz wudhu  todos os dias, ouve batuque, dança mazurka e funaná, reza em árabe, bebe grogue com os tios ao domingo……..Sou a Fátima e sou, como tantos outros, uma cidadã no Mundo que adora esta magnífica Babel que é  Lisboa.

CÁTIA

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Cátia Lopes divide a sua identidade com Portugal e Cabo Verde. Mas influenciada por outras culturas com as quais mantém contactos a nível pessoal e profissional, continua a dividir a sua identidade pelos países fora. É licenciada em Estudos Africanos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e mestre em Desenvolvimento e Cooperação Internacional, pelo ISEG – Instituto Superior de Economia e Gestão. Publicou artigos de investigação sobre o microcrédito na Guiné-Bissau e o empoderamento das mulheres. Trabalha na área da Educação e Cooperação para o Desenvolvimento desde 2007, o que lhe permitiu melhor compreender a importância de um mundo cada vez mais intercultural. Fazer as visitas guiadas como guia do Migrantour é um privilégio, por ser uma oportunidade de partilha de conhecimentos, encontro de culturas e desconstrução/construção de ideias. Ser uma “passadora de cultura” na Mouraria, implica por isso uma grande responsabilidade, que assumiu com gosto e dedicação.

FILÓ

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Naquela manhã ensolarada eu e minha irmã fomos convidadas a sair de dentro de casa. Vi a minha madrinha fechar a porta do lado de fora… entraram todos no carro que já estava com os pertences da família… as últimas palavras :”agora esperem os vossos pais que já vêm vos buscar“. Ficamos as duas a olhar o carro a desaparecer na estrada… silêncio. Atrás de nós, a porta de casa fechada. Do outro lado da rua existia o hospital de Novo Redondo com muitas árvores e vegetação. Ali brinquei muito subindo naquelas árvores ficando horas a comer maçãs da Índia e de esconde-esconde! Mas nessa manhã, e desde que a guerra havia começado, não havia mais tempo para brincadeiras. Apesar do sol, as ruas estavam desertas. Olhei com os olhos curiosos de uma criança de 9 anos e vi nas copas das árvores soldados camuflados, todos vestidos com as fardas de guerra com vários tons de verde. Vi metralhadoras em suas mãos, saindo entre os ramos e as folhas das árvores. Não tive medo, mas resolvi sair dali o mais depressa possível. Peguei minha irmã, coloquei-a nas minhas “cavalitas” e lá fui eu a correr ao encontro dos nossos pais que tinham ido à nossa casa pegar os pertences para sairmos da cidade porque aquele era o dia em que os portugueses (e não só) podiam deixar a cidade, em paz. Nesse dia fui abandonada pela minha madrinha, mas não por Deus! Horas depois, deixámos Novo Redondo e a minha vida de migrante se inicia.

De Angola viemos para Portugal e pouco tempo depois seguimos para o Brasil. E esta sou eu, Filomena Farinha, a Filó como gosto de ser chamada. Natural de Angola, portuguesa de nacionalidade com sotaque brasileiro que carrega os costumes e os jeitos das gentes destes três grandes países falantes da língua portuguesa. Cada país deixou a sua marca em mim… lutar pelos meus ideais (Angola), ser corajosa (Portugal) e ter FÉ e nunca perder o bom Humor (Brasil). No Brasil me tornei a pessoa e profissional que hoje sou. Formada no Curso Superior de Turismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul como Bacharel. Já a viver em Portugal desde 1999, em 2010, vi as minhas habilitações literárias serem reconhecidas, por unanimidade de júri, ao nível de Licenciatura pela Universidade dos Açores. Trabalho na área do turismo como empreendedora, tendo como missão o bom acolhimento ao visitante que vem a Portugal. Nas visitas guiadas a Mouraria sou guia intercultural no âmbito do Projeto Mygrantour que se traduz em ser uma migrante “passadora de cultura”, onde as minhas vivências de migrante se misturam com as Histórias da Mouraria e da sua multiculturalidade sempre como pano de fundo a História de Portugal. O projecto Mygrantour é um presente que a vida me brindou!

A escolha da guia que acompanhará a visita depende sempre da sua disponibilidade de acordo com a data da reserva.

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