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Passeio Performativo: da Mouraria, de António e de Vicente

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Este ano, São Vicente, o mais antigo padroeiro da cidade, fez chegar ao colega Santo António a sua preocupação com a falta de casas. Antoninho, de coração gigante, depressa se mostrou solidário com quem precisa de poiso. Pois que quem casa… Por isso, há este ano pela Mouraria manjericos negros e quadras impopulares. Os dois santos mais amados da Capital da Luz e do Mar juntam-se em animado debate e convidam-no para um passeio performativo pelo Bairro. Venha fazer parte da história.

Passeios psicogeográficos e performativos 
Por Nelson Guerreiro e Pedro Santa Rita 
Curadoria: Mário Caeiro 

Ponto de encontro na Associação Renovar a Mouraria, dia 10 de Junho, às 16h.
Preço: 5€ / Marcações para 927 522 883
(Realização sujeita a um mínimo de 12 pessoas e máximo de 25)

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DA MOURARIA E ANTÓNIO

Bairro antigo que se perde na memória do tempo, a Mouraria deve o seu nome aos Mouros forros, expulsos da Medina islâmica, após a conquista de Lisboa pelos cristãos em 1147. Território de segregação étnico-eligiosa – ainda por lá corria o esteio do Tejo – o arrabalde foi crescendo fora das muralhas fernandinas e das portas de S. Vicente. Geograficamente próximo do centro da cidade mas socialmente periférico, o bairro da Mouraria foi ao longo da história um território de acolhimento de todo o tipo de culturas e das gentes que se aproximavam da grande cidade: desde os migrantes de todas as regiões de Portugal aos galegos e africanos, para, desde os anos 90 do século passado, ser a porta de entrada dos imigrantes da Ásia e do extremo Oriente. Esta realidade urbana e histórica – cultural –, tem marcado profundamente a paisagem física e humana deste bairro e manifesta-se na diversidade étnica-religiosa de um território onde convivem mais de 50 nacionalidades. Cosmopolita, a Mouraria dos dias de hoje convive e venera diferentes deuses e santos, mas é o Santo António quem marca o seu calendário festivo, mobilizando colectivamente a sua população para realizar a festa em cada beco, ruela ou largo. Em tempos de festa, onde o religioso se confunde com o profano, erguem-se à entrada das habitações os altares e pede-se o tostãozinho – ou não fosse este o santo da caridade em terras onde o pão nem sempre abundou.
DE VICENTE

Outro Santo com grande presença na Mouraria é S. Vicente. O padroeiro de Lisboa, que não tem direito a festejos, está presente na toponímia do Bairro, encontra-se
esculpido em diversas pedras foreiras e deu outrora o seu nome às hoje chamadas Portas da Mouraria.

Mas quem é este Santo, que segundo os “Miracula de sancti vincentii” quis ser venerado pela gente de Lisboa? E de que forma está associado a este bairro?

Foi a 15 de Setembro de 1173 que as relíquias de S. Vicente, subindo o esteio do Tejo, chegaram clandestinamente a Lisboa. Marinheiros Moçárabes terão transportado o Santo, sob segredo absoluto, desde o cabo Sacro (S. Vicente) até S. Justa, muito perto da Mouraria.

Os Moçárabes eram cristãos arabizados do sul da Hispânia que, gozando da tolerância religiosa do Islão, não se reconheciam no novo poder cristão do norte da Europa, instituído por D. Afonso Henriques, após a conquista de Lisboa em 1147.

S. Vicente era um santo de devoção Moçárabe e por direito próprio teria forçosamente de ficar numa das duas igrejas Moçárabes de Lisboa: S. Justa (perto da Mouraria) ou Santa Maria de Alcamim (na Alta Mouraria). Perante o colonialismo do novo poder eclesiástico (que chega assassinar o Bispo Moçárabe), S. Vicente acaba por ser transladado para a Sé de Lisboa e não para qualquer igreja de culto Moçárabe. Torna-se assim no Padroeiro (expropriado) de Lisboa, para contento das novas elites. Aliás a nova Sé catedral de Lisboa ergue-se sob a velha Mesquita Aljama, enquanto acto simbólico dos vencedores sobre os vencidos.

Em 1373, aquando da construção do lanço ocidental da Muralha Fernandina, S. Vicente é de novo chamado à Mouraria para dar o seu nome a uma das portas da cidade de Lisboa – curiosamente aquela que separava a Mouraria das minorias e das almas da cidadela dos vizinhos. S. Vicente representa agora o poder dominante – mas será ainda assim nos dias que correm?

DA CIDADE E DOS PASSEANTES

Indo à procura de motes para a escrita, atravessando paisagens arquitectónicas e humanas e projectando interacções com as gentes da Mouraria, Nelson Guerreiro
derivará pelo bairro durante dias consecutivos. Registando as ocorrências, à procura de locais potentes para construir narrativas, promovendo encontros inusitados com toda a sorte de pessoas, imaginando acções performativas, realizando micro-performances, visitando comerciantes e outras gentes, recolhendo narrativas em conversa, almoçando, petiscando e jantando em restaurantes e tascas, redigindo textos que ampliem a noção de crítica gastronómica, assistindo a acontecimentos culturais, visitando espaços culturais do bairro, Nelson Guerreiro projectar-se-á como actor-emcenador de passeios psicogeográficos e performativos capazes de alterar a percepção actual dos lugares.

Em relação estreita com o saber histórico e geográfico proporcionado por Pedro Santa Ria, bem como com a agenda sócio-cultural da Associaçao Renovar a Mouraria, estes passeios procurarão refazer uma prática situacionista: a dos passeios psicogeográficos, conformes à teoria da deriva de Guy Debord. Nestas derivas, os situacionistas promoviam uma técnica de passagem rápida por ambientes variados, em que a caminhada implicava um comportamento lúdico-construtivo e uma consciência dos efeitos psicogeográficos, nisso diferenciando-se criticamente das noções clássicas de viagem ou de passeio.

LITERATURA SITUADA

Estes passeios terão por base textos originais escritos no género que Nelson Guerreiro. O autor define-os como “light-fiction”, espécie de Literatura Situada, conforme baptismo de Mário Caeiro quando este género de prática espacial-literária foi primeiramente testado, em 2011, no âmbito do VICENTE (iniciativa anual do projecto Travessa da Ermida que se realiza em Belém)

Nos passeios, encaminhar-se-ão as pessoas para reencontrar algumas das transformações que caracterizam a evolução da Mouraria. A leitura – ao vivo e a cores – será, por um lado, o partilhar do resultado do atravessamento prévio dos espaços (uma deriva originalmente solitária). A narrativa poderá por outro lado invocar as mais mirabolantes histórias e levar ao descobrir de novas percepções, não apenas poéticas, mas também críticas, de espaços públicos e privados, reais e ficcionais, fruto das cartografias encetadas pelos passeantes.
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NOTAS BIOGRÁFICAS

Nelson Guerreiro
Actualmente, é docente na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha nos cursos de Artes Plásticas, Teatro e Som & Imagem, onde lecciona as disciplinas: Teatro Contemporâneo, Performance, Arte & Performance, Escrita Criativa, Teoria e História do Audiovisual. A partir de 2001, voltou-se para a criação: desse movimento desenvolveu vários projectos individuais e colectivos dos quais se destacam “Guerrero Notebook” (2003 – CAPITALS), “Schrëibstuck” de Thomas Lehmen (2003), “Guerrero Notebook: Holiday Inn” (2004 – Festival Intermedia de Torres Vedras), “Vaivém: a história verdadeira de um projecto transdisciplinar (2005 – CITAC, Montemor-o-Velho), “Copyright” – em co-criação com Patrícia da Silva”, no âmbito do ciclo “Shall We Dance Shall We Dance” – Teatro Praga – 2006), “Discotheater”, (2006 – Teatro Praga) “Guerrero Notebook: Holiday Out – 2007″ – Mugatxoan & Fundação de Serralves – (2006), “A Festa” de Tiago Rodrigues (2007), “Guerrero Notebook – Um Homem sob Influência” (2008 – Revista Marte & Culturgest), West Coast (Truta – 2009). Mais recentemente, colaborou com Martim Pedroso, como assessor artístico, dramaturgo e dramaturgista dos seus espectáculos e projectos.

Pedro Santa Rita 
Licenciado em Geografia humana pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, colaborou, enquanto aluno de Mestrado, em projectos de investigação nas áreas de Geografia do turismo, Sociologia urbana e História urbana. Este percurso académico em diferentes áreas das Ciências Sociais, tornou-se fundamental ao seu estudo apaixonado da cidade de Lisboa, enquanto realidade espácio-temporal. Formador e Professor do ensino secundário, tem vindo a construir ( no âmbito do Departamento de História e Geografia) diversos itinerários para visitas de estudo adaptadas aos programas curriculares dos alunos, tendo como objectivos gerais o conhecimento da cidade, enquanto espaço vivido e a descoberta do outro. Sócio fundador e dirigente da ARM, coordenou cientificamente o projecto “Mouraria para Todos”, na área do turismo inclusivo. É formador e guia residente dos projectos Migrantour, Visitas Cantadas e Visita a Mouraria.
Desde 2016, colabora no Projecto Vicente – Travessa da Ermida, através da realização de visitas histórico- literárias em torno da figura de S. Vicente, nomeadamente para o evento “Lisboa na Rua (2016)” e pela participação na Revista Vicente.