Renovar a Mouraria - Associação Sociocultural

Amigos da Mouraria

A Associação Renovar a Mouraria felicita Adalberto Alves, grande estudioso e amigo da Mouraria

Unesco: Adalberto Alves recebe prémio Sharjah 2008
O escritor português Adalberto Alves, que foi distinguido com o prémio Sharjah 2008 para a cultura árabe, atribuído pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), recebe o galardão esta segunda-feira, em Paris.
O prémio Sharjah, no valor de 30 mil dólares (22 mil euros) para cada vencedor, foi criado em 1998 com fundos oferecidos pelo Emirado de Sharjah, dos Emirados Árabes Unidos, por proposta do xeque sultão Bin Mohamed Al-Oassimi.

 O objectivo do prémio é distinguir personalidades, grupos ou instituições que tenham contribuído de forma significativa para o desenvolvimento, a difusão e a promoção da cultura árabe no mundo e também a preservação e revitalização deste património cultural.

 Atribuído pela primeira vez em 2001, o prémio Sharjah tem distinguido sempre duas personalidades, uma do mundo árabe e outra de um país não árabe, como acontece este ano com o português Adalberto Alves.

José Adalberto Coelho Alves, 69 anos, advogado, é presidente do Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves. O seu interesse pela cultura muçulmana levou-o a estudar Língua Árabe na Universidade Nova de Lisboa, encontrando-se ligado a diversas instituições, entre as quais se pode destacar a Fundação da Memória Árabe, o Centro Português de Estudos Islâmicos e a Academia de Altos Estudos Ibero-Árabes.

Entre os livros de poesia, contos e ensaios que publicou incluem-se títulos dedicados ao mundo árabe: O Meu Coração é Árabe, Arabesco - da Música Árabe e da Música Portuguesa, Al-Mu´tamid/ Poeta do Destino e Ibn´Ammâr Al-Andalusi - O drama de um poeta.

“Se, num passe de mágica, fosse possível apagar, de Portugal actual, todos os vestígios do legado árabe, a nível étnico e cultural, a paisagem humana, física e civilizacional que contemplaríamos seria inteiramente diversa. Tornar-nos-íamos, possivelmente, louros e não morenos como habitualmente somos. Deixaríamos de falar o latim arabizado que é o português, e perderíamos mais de mil palavras do nosso léxico. Muitas das nossas povoações deixariam de existir ou mudariam de nome. Não saberíamos como nomear a maior parte do que comemos ou cultivamos. Como chamaríamos o jasmim, a laranja, a tâmara e a romã? Que nome daríamos ao alguidar, ao alfaiate, ao alaúde e ao alferes? A nossa poesia – o mais alto valor do génio português – sem o contributo árabe, não teria visto nascer, provavelmente, as cantigas trovadorescas. E sem o sentimento de saudade, herdado do nasib da qasida árabe, de raiz beduína, que seria feito do nosso lirismo? Que Camões seria possível? A este respeito, e bem, Fernando Pessoa afirma expressamente que nós somos um povo romano-árabe porque ‘foram os árabes que nos educaram’. E Antero de Quental, não o esqueçamos, filia a nossa decadência na expulsão dos árabes”, cujas escolas tinham renovado o pensamento e a filosofia.
Nesse cenário de imaginação, os núcleos históricos de muitas das nossas cidades perderiam o encanto do seu traçado labiríntico. Pensemos em Lisboa, sem Alfama nem Mouraria. Pensemos num Alentejo, sem a vertigem branca da cal das suas casas, e num Algarve sem açoteias nem chaminés, minúsculos minaretes sobre os telhados. Que artesanato teríamos? (…) Sem a Ciência Árabe – Medicina, Matemática, Astronomia, Geografia, Física e Botânica – que Renascimento teria sido esse? Que Filosofia teríamos tido, se os muçulmanos não tivessem preservado a maior parte do legado Greco-Latino desenvolvendo inovadoras direcções? (…) Como é que um pequeno povo, como o nosso, teria chegado aos quatro cantos da Terra sem o auxílio das ciências de navegação árabes?”

Adalberto Alves